Genes que protegiam nossos ancestrais podem causar doenças autoimunes
Pesquisas científicas recentes apontam que variantes genéticas que ajudaram nossos ancestrais a sobreviver a infecções podem estar associadas ao desenvolvimento de doenças autoimunes na atualidade. Entre essas condições estão esclerose múltipla, lúpus, artrite reumatoide, diabetes tipo 1, psoríase e doença de Crohn, caracterizadas por alterações no sistema imunológico que levam o organismo a atacar seus próprios tecidos e órgãos. Estudos indicam que determinadas características hereditárias, consideradas vantajosas há milhares de anos, podem representar fatores de risco no ambiente moderno. A hipótese ajuda a compreender por que doenças autoimunes continuam presentes e afetam milhões de pessoas em diferentes regiões do mundo.
Uma das principais descobertas envolve análises de DNA humano antigo, realizadas por pesquisadores da Universidade de Oxford e instituições parceiras. Os cientistas identificaram variantes genéticas que se tornaram mais frequentes durante a Idade do Bronze, há aproximadamente 5 mil anos, quando populações passaram a conviver mais intensamente com animais domesticados e agentes infecciosos. Naquele período, um sistema imunológico mais eficiente contra determinadas infecções poderia aumentar as chances de sobrevivência. Entretanto, algumas dessas mesmas variantes estão atualmente associadas a maior predisposição à esclerose múltipla. Outro estudo, envolvendo vítimas da Peste Negra no século 14, encontrou indícios de que uma variante genética possivelmente favorável à sobrevivência durante a epidemia também está relacionada ao risco de desenvolver a doença de Crohn.
Os pesquisadores explicam que esse fenômeno é conhecido como pleiotropia antagônica, quando uma característica genética pode oferecer vantagens em determinadas circunstâncias e desvantagens em outras. Com os avanços do saneamento básico, da medicina e do controle de doenças infecciosas, o ambiente em que o sistema imunológico humano atua passou por profundas transformações. Genes que anteriormente contribuíam para a proteção contra infecções podem, em determinadas condições, favorecer respostas imunológicas inadequadas. Apesar das evidências, os cientistas ressaltam que as doenças autoimunes possuem causas complexas, envolvendo fatores genéticos, ambientais e comportamentais. As descobertas ampliam o conhecimento sobre a evolução humana e podem contribuir para futuras estratégias de prevenção e tratamento.
Com informações: Folha de São Paulo





