Falhas na destinação de garrafas de vidro favorecem mercado ilegal e ampliam risco de bebidas adulteradas
Em meio ao surto de intoxicações por metanol em São Paulo, especialistas apontam que uma das principais brechas que alimentam o mercado clandestino de bebidas falsificadas está na falta de controle sobre garrafas de vidro usadas. Estabelecimentos que vendem garrafas intactas, com rótulos e tampas originais, acabam facilitando a ação de falsificadores, que reaproveitam essas embalagens para comercializar produtos adulterados.
Embora existam normas para a destinação correta de resíduos, não há uma lei específica que obrigue bares e restaurantes a quebrarem as garrafas de uso único após o consumo. A presidente da Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), Cristiane Foja, explica que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) já define a responsabilidade compartilhada entre fabricantes, varejistas e consumidores. No entanto, a ausência de uma regra que determine a descaracterização obrigatória das embalagens mantém o ciclo vulnerável à ação de falsificadores.
Segundo Cristiane, a solução passa por fortalecer a logística reversa e ampliar a colaboração entre todos os elos da cadeia. Há 15 anos, a Abrabe criou o programa Glass is Good, pioneiro na reciclagem de garrafas de bebidas alcoólicas. A iniciativa já destinou mais de 365 mil toneladas de vidro à reciclagem, evitando a emissão de quase 194 mil toneladas de CO₂ e gerando renda formal para cooperativas em 24 estados. O projeto demonstra que o vidro, sendo 100% reciclável e rastreável, pode ser um aliado no combate à falsificação e na promoção da economia circular.
Para o CEO da Green Mining, Rodrigo Oliveira, a crise do metanol evidencia que o problema vai além do meio ambiente: trata-se de uma questão de saúde pública e segurança. “Cada garrafa que escapa do fluxo correto pode se tornar veículo de produtos adulterados que custam vidas”, alerta. Ele defende a implementação de leis mais rigorosas, como a obrigatoriedade de quebrar garrafas não retornáveis e a criação de sistemas digitais de rastreabilidade para monitorar o ciclo completo das embalagens.
Entre as propostas defendidas pelo setor estão a proibição da venda irregular de garrafas inteiras, a valorização dos catadores com remuneração justa e o fim dos intermediários que alimentam o comércio clandestino. Para Cristiane Foja, “sustentabilidade e segurança caminham juntas”. A especialista reforça que somente com a atuação conjunta de governo, indústria e sociedade será possível conter o avanço das bebidas falsificadas e proteger tanto o meio ambiente quanto a saúde da população.
Com informações: Exame





