Congelamento de óvulos cresce no Brasil e expõe desafios da fertilidade tardia
A busca por preservação da fertilidade e técnicas de reprodução assistida tem avançado no Brasil. Entre 2020 e 2024, quase 545 mil embriões foram congelados no país, um crescimento de 47,6% no período, segundo dados do SisEmbrio, sistema da Anvisa. Somente em 2024, foram congelados 151,6 mil óvulos — e mais da metade, 57,1%, pertenciam a mulheres com 35 anos ou mais. O movimento acompanha o adiamento da maternidade e da paternidade, enquanto o mercado global de serviços de fertilidade já movimenta bilhões de dólares.
Especialistas alertam, porém, que a fertilidade tem limites biológicos. A partir dos 35 anos, a reserva ovariana tende a diminuir de forma mais acelerada, reduzindo as chances de gravidez e elevando o risco de alterações cromossômicas e complicações gestacionais. Segundo a médica Ana Paula Avritscher Beck, do Hospital Israelita Albert Einstein, a idade é um fator central, mas não o único: doenças como endometriose, obesidade, tabagismo e até fatores ambientais também influenciam. A presidente da Comissão de Reprodução Assistida da Febrasgo, Rivia Mara Lamaita, destaca ainda que o envelhecimento masculino também impacta a qualidade dos espermatozoides e pode aumentar riscos genéticos.
Apesar do avanço das técnicas como o congelamento de óvulos e a fertilização in vitro (FIV), especialistas reforçam que não há garantias de sucesso. A efetividade depende, principalmente, da idade no momento do congelamento e da quantidade de óvulos preservados. Além disso, o acesso às tecnologias é desigual no país: em 2024, dos 196 centros de reprodução assistida registrados, 65 estavam concentrados em São Paulo. Em meio à queda da taxa de fecundidade brasileira — que chegou a 1,55 filho por mulher no Censo de 2022 — o debate sobre fertilidade envolve não apenas ciência, mas também desigualdade social, planejamento de vida e políticas públicas.
Com informações: Folha de São Paulo





