Ilhas isoladas, megacondomínios não se integram ao resto da cidade
Com mais habitantes que a maioria dos municípios brasileiros, condomínios gigantes estão de costas para a cidade
O capital privado sempre esteve na base do crescimento de São Paulo. Desde as casinhas de aluguel até os grandes loteamentos da periferia, passando pela Companhia City, a cidade cresceu nesse arranjo errático entre o investimento privado e a legislação.
Os condomínios fechados ganharam força quando o medo da violência aumentou, na década de 1990. Foi assim que começamos a comprar em shopping centers, trabalhar em centros empresariais e morar em condomínios residenciais, num modelo que a antropóloga Teresa Pires do Rio Caldeira batizou de “cidade de muros”.
Hoje, enquanto o zoneamento legisla prédio a prédio, alguns projetos estão desenhando um futuro ainda mais segregado. São os megacondomínios, que vicejam em glebas enormes, com milhares de moradores, bancados por fundos que migraram da indústria e varejo para os empreendimentos imobiliários em busca de retornos maiores.
O problema dos megadondomínios que foram construídos até agora é que eles estão dando as costas para a cidade.
No Complexo Cidade Jardim, o cidadão desce da sua casa, trabalha, vai à academia e faz compras no shopping sem sair do condomínio. A ligação com a rua se dá prioritariamente para quem chega de carro.
Os megacondomínios populares oferecem torres sem graça muito próximas umas das outras em grandes áreas muradas, seja na Raposo Tavares ou em Pirituba, onde está o Grand Reserva Paulista, que amontoa muros, 51 prédios e pouca urbanidade. O Reserva Raposo promete ser maior ainda, com potencial para mais de 60 mil pessoas, maior que a população de São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo.
O tecido urbano resultante é um arquipélago, com ilhas muradas cercadas pela cidade real, aquela que tem padarias e esquinas.
Será que há alguém disposto a romper a lógica da cidade murada?
Um dos empreendimentos que está adotando um discurso diferente é o Cidade Center Norte ao lado do shopping de mesmo nome. O projeto fala em estimular diversidade de usos e a mobilidade ativa entre os prédios e áreas públicas para seus 11 mil potenciais habitantes. O que parece digno de nota é a intenção declarada de manter o projeto aberto para a cidade, em vez de ser cercado por muros. No Jardim das Perdizes, isso foi aventado, mas o resultado é uma mistura estranha de prédios fechados em meio a alguns espaços públicos e pouco comércio de bairro.
No outro lado do espectro, a gigante MRV, a mesma do Grand Reserva, está testando um discurso diferente para o Sete Sóis. O projeto é superlativo, com um milhão de metros quadrados (equivalente a 100 quarteirões) e promete áreas verdes abertas para moradores do entorno, comércio acessível a pé e até usa o conceito da “cidade de quinze minutos“. A contradição de transpor o conceito parisiense de cidade para um condomínio não passa desapercebida.
Também não dá para deixar de notar como os nomes tentam capturar elementos semânticos da urbanidade, como “jardim”, “reserva” e “cidade”. Entretanto, juntando promessas e realidades, não tenho certeza de que estejam de fato emulando a experiência urbana.
O problema desses megaempreendimentos não está dentro, mas fora. A vida pode ser segura e até interessante dentro deles, mas a vitalidade urbana é sugada ao redor de seus muros, como se comprova numa simples volta a pé pela Barra Funda ou Morumbi.
A base das cidades ocidentais sempre esteve assentada na conivência entre pessoas diferentes. Quando essa convivência é dificultada pelo próprio urbanismo, a cidade perde vitalidade e fenece.
Fonte: Folha de São Paulo





