Entenda qual é o verdadeiro problema dos utensílios de plástico preto
Um estudo encontrou altos níveis de retardantes de chama neste material, o que levanta preocupações
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“Você ainda deve usar plástico preto?”
Essa foi a dúvida de muitos americanos depois que um estudo, no ano passado, encontrou altos níveis de retardantes de chama em espátulas de cozinha, bandejas de sushi e descascadores de alimentos. Algumas reportagens sugeriram que os consumidores jogassem fora suas espátulas de plástico preto, já que poderiam estar contaminadas com resíduos de lixo eletrônico reciclado.
No entanto, o estudo cometeu um erro ao calcular o nível que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês) considera “seguro” para um determinado químico, estabelecendo o valor em um décimo do que a agência realmente recomenda. Os pesquisadores corrigiram essa falha, mas o erro fez muitas pessoas questionarem se o plástico preto era realmente tão perigoso quanto se pensava.
Especialistas, porém, dizem que o debate sobre o estudo —e sobre utensílios de cozinha de plástico preto —perde o ponto central da questão. Segundo eles, o chamado nível seguro de retardantes de chama é baseado em ciência ultrapassada, que não leva em conta como diferentes substâncias químicas podem se acumular no corpo.
“O problema não é saber se uma única espátula de plástico preto pode exceder o nível seguro, mas se esse nível deve ser considerado seguro.”
“O nível de referência não é um nível seguro”, afirma Tracey Woodruff, professora de ciências reprodutivas na Universidade da Califórnia em São Francisco. Ela também destaca que os retardantes de chama se acumulam na poeira doméstica e no corpo ao longo dos anos, tornando ainda mais essencial que a regulamentação seja precisa. “Se você comete um erro, esse erro é para sempre”, diz.
O perigo dos retardantes de chama
Há anos os cientistas sabem que os retardantes de chama são prejudiciais à saúde humana. PBDEs (éteres difenílicos polibromados) são uma classe particularmente perigosa desses compostos, associados à redução do QI infantil, aumento dos casos de câncer e desenvolvimento de doenças da tireoide. No organismo, os PBDEs se assemelham a hormônios da tireoide —e qualquer desregulação nesses hormônios pode impactar o desenvolvimento do cérebro.
Um estudo conduzido por Woodruff e seus colegas estimou que, para cada aumento de dez vezes na exposição materna a PBDEs durante a gravidez, há uma queda de 3,7 pontos no QI da criança após o nascimento. “Podemos afirmar com certeza que esses compostos prejudicam o neurodesenvolvimento”, diz Woodruff. “Eles afetam os cérebros em desenvolvimento dos bebês.”
Outro estudo descobriu que pessoas com os mais altos níveis de PBDEs no organismo têm quatro vezes mais chances de morrer de câncer do que aquelas com os menores níveis.
No passado, esses retardantes de chama estavam presentes em diversos produtos, especialmente na Califórnia, onde uma lei de 1975 exigia que móveis fossem resistentes ao fogo. Hoje, no entanto, eles foram amplamente eliminados, permanecendo apenas em eletrônicos, onde o risco de superaquecimento de baterias e placas de circuito pode causar incêndios. Pesquisadores demonstraram que esses eletrônicos estão sendo reciclados e transformados em plástico preto para utensílios de cozinha, brinquedos e outros produtos domésticos.
O problema, alertam os especialistas, é que ninguém realmente sabe qual seria uma “dose segura” desses retardantes de chama —e reciclá-los em plástico preto lhes dá uma segunda vida.
O erro no estudo e a questão regulatória
No estudo publicado no ano passado, os pesquisadores encontraram altos níveis de retardantes de chama em colheres de macarrão com fendas, bandejas de sushi e contas de plástico preto usadas por crianças. Inicialmente, relataram que alguns itens poderiam se aproximar do limite da EPA de 42.000 nanogramas por dia para uma pessoa com cerca de 60 quilos. Porém, corrigiram essa informação posteriormente, esclarecendo que o limite correto da EPA é de 420 mil nanogramas por dia.
Megan Liu, coautora do estudo, afirma que a correção não altera fundamentalmente os resultados. “Ainda encontramos retardantes de chama em muitos produtos domésticos, e em quantidades muito superiores ao que a maioria das pessoas consideraria aceitável.”
Além disso, pesquisadores questionam se esse limite de exposição da EPA é realmente adequado. “É um número antigo”, diz Liu, destacando que essa dose segura foi avaliada pela última vez há quase 20 anos, antes de grande parte das pesquisas científicas sobre PBDEs terem sido publicadas.
Esse limite também considera apenas um tipo específico de PBDE. No entanto, as pessoas estão expostas a dezenas de retardantes de chama diferentes e outros produtos químicos tóxicos todos os dias. Enquanto um tipo pode se acumular na poeira doméstica, outro pode estar sendo liberado por uma bandeja de sushi de plástico preto. Embora usar uma colher de plástico preto para servir macarrão possa não levar a uma ingestão acima do limite estabelecido, a soma dessa exposição com outras atividades diárias pode ser preocupante.
“Nossa estrutura regulatória é baseada em cada substância química individualmente”, explica Heather Stapleton, professora de química ambiental na Universidade Duke. “Pessoalmente, gostaria que considerássemos a exposição como um todo.”
Woodruff aponta que as doses consideradas seguras são baseadas em experimentos de laboratório que, geralmente, utilizam animais adultos e saudáveis —um cenário que pode não representar os riscos para pessoas mais vulneráveis, como bebês ou mulheres grávidas. “Isso é retratado como se o risco fosse zero, mas simplesmente não é verdade”, alerta.
Além disso, tanto os cientistas quanto os consumidores enfrentam dificuldades para saber quais tipos específicos de retardantes de chama estão presentes em eletrônicos ou móveis, já que as empresas não são legalmente obrigadas a divulgar essa informação.
E embora os pesquisadores possam testar a concentração de retardantes de chama em um determinado produto, é difícil determinar quanto dessas substâncias pode, de fato, ser absorvido pelo corpo humano, seja por contato com sofás, seja por bandejas de comida para viagem.
A luta contra os produtos químicos nocivos
O clorato de tris, um retardante de chama utilizado como substituto dos PBDEs, foi originalmente usado em pijamas infantis, mas sua aplicação foi reduzida depois que cientistas alertaram para os riscos à saúde. No entanto, ele não foi totalmente banido e continuou a ser usado em móveis, incluindo colchões infantis. “Temos bebês respirando o ar a centímetros da superfície desses materiais”, ressalta Stapleton. “O fato de que isso não precisa ser divulgado me parece um pouco perturbador.”
A menos que haja mudanças nas regulamentações, os cientistas continuarão lidando com um tipo de “jogo de gato e rato”, eliminando uma substância química apenas para enfrentar outra que pode ter consequências igualmente perigosas.
Pesquisadores defendem uma abordagem mais ampla, em que os governos avaliem a exposição a diversos retardantes de chama de diferentes fontes —e não apenas no plástico preto. Mas os avanços são lentos, e muitas pessoas ainda apresentam sinais de exposição a essas substâncias.
Um estudo em Seattle, que analisou amostras de leite materno, encontrou retardantes de chama em todas as 50 mulheres examinadas.
Liu vê o plástico preto como parte de um problema maior, mas também como algo relativamente fácil de evitar. Ela aponta que o Estado de Nova York já proibiu o uso de PBDEs em televisores, e a União Europeia impôs limites rigorosos ao seu uso na maioria dos produtos de consumo.
Fonte: Folha de São Paulo