Uma boa e uma má notícia para Bolsonaro

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A maioria dos analistas ainda enxerga a atual corrida eleitoral com olhos vidrados no retrovisor e a partir de premissas desbotadas pelo tempo. Há, por exemplo, quem aposte fichas caras e improváveis na propaganda eleitoral no rádio e televisão, a começar em agosto – como se atualmente ela ainda tivesse o condão de provocar uma reversão no cenário político. Trata-se de um erro crasso. A essa altura, em 2006, o candidato do PSDB ao Planalto, Geraldo Alckmin, repetia o mantra: “Eleição só começa quando muda o horário da novela”. Era verdade. Doze anos e três eleições presidenciais depois, o peso do horário eleitoral gratuito vem sendo mitigado pelo alcance do Whatsapp e pela antecipação da campanha nas redes sociais. Em ambos, os candidatos já deitam e rolam há algum tempo.

Se antes a população só começava a prestar atenção no cardápio de candidatos quando a programação dos canais de TV era interrompida para a exibição da propaganda política, hoje o eleitor não só já experimentou a sobremesa, como o cafezinho daqui a pouco esfria. Ou seja, apesar dos números expressivos de indecisos registrados nas recentes pesquisas, parcela da população já definiu o seu voto. Ou está à beira de. É a boa notícia para o atual líder nas intenções de voto, Jair Bolsonaro (PSL). A má notícia é que as alianças, para as quais ele não deu muita bola na hora de negociar um tempo de TV nem tão fundamental assim, serão indispensáveis para ele governar, caso vença o pleito. O carro está um pouco na frente dos bois, tudo bem, mas trata-se de uma questão inescapável que logo, logo emergirá com força no debate político: se eleito, Bolsonaro governa?

Hoje, descortina-se no horizonte do presidenciável do PSL a base parlamentar mais débil desde a redemocratização. E a história ensina qual o custo político da ausência de uma bancada sólida no Congresso. E como ensina. Os apoiadores de Bolsonaro equivocam-se ao pensar que o candidato pode se lixar para o tripé “mídia – elite – Congresso” para governar. Não é fácil enfrentar o establishment. Bolsonaro parece saber disso. Por isso, o economista liberal Paulo Guedes não é apenas o Pigmaleão de Bolsonaro. É, de certa forma, sua Carta ao Povo Brasileiro. É o aceno ao establishment do candidato anti-establishment – suficiente para chegar ao segundo turno e (quem sabe até) vencer a eleição, mas não o bastante para governar. Eleitores do deputado do PSL podem até achar que o candidato é “a luz do baile” de Monteiro Lobato. Não é. O Brasil também não é os Estados Unidos. Nem Bolsonaro é Donald Trump. E nós não temos tradução precisa para wishful thinking.

O livro How Democracies Die, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, lembra bem que, ao contrário do Brasil, a democracia americana é sustentada por um conjunto de normas tácitas capazes de evitar que os fios desencapados da Constituição norte-americana sejam usados para provocar a desestabilização do sistema. É o que os cientistas políticos de Harvard chamam de forbearance. Por essa regra silenciosa, mas respeitada, as oposições acostumaram-se a abrir mão de expedientes institucionais em nome da estabilidade democrática e da manutenção da engrenagem do jogo político. A carta explosiva do impeachment, por exemplo, embora constitucional, para eles é preferível manter no bolso. Aqui, se vacilar, o Bolso não escapa.

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